Nov 23, 2017 Last Updated 6:03 PM, Feb 11, 2017

Flávio Rangel - 80 Anos

Um dos maiores diretores do teatro nacional, Flávio Rangel foi também um dos poucos que conseguiu unir com maestria a arte à técnica.

Também autor, jornalista e tradutor de peças teatrais, Flávio foi o primeiro diretor brasileiro do prestigiado TBC, que revitalizou e modernizou o teatro na década de 50 no Brasil. No ano em que completaria 80 anos, o artista continua presente através da identidade brasileira que o teatro assumiu no país e no trabalho de cada diretor que teve o "engenheiro de sonhos" como modelo (assista abaixo vídeo com grandes momentos de sua carreira).
Nascido em 6 de agosto de 1934, em Tabapuã, interior de São Paulo, Flávio Nogueira Rangel mudou-se para capital aos três anos. Sua carreira de estudante de direito teve fim no dia em que assistiu ao espetáculo "A Falecida", de Nelson Rodrigues, no início da década de 50. Esse foi o momento em que percebeu que o Teatro era sua vocação. A partir daí, dá início a sua vida artística, escrevendo e adaptando textos para o Teatro Tupi. Sua grande chance apareceu em 1957, no Teatro Brasileiro de Comédias (TBC), com "No Outro Lado da Rua", de Augusto Boal.
– Ele era uma pessoa extremamente organizada, disciplinada, com absoluta certeza daquilo que achava que tinha que fazer. Nervoso, mas ao mesmo tempo muito construtivo. Vivia sempre a 130 km/h em um tempo em que os carros só iam até 110. Era muito cuidadoso com a parte técnica também: iluminação, a questão de figurino, as marcações. Ele dirigia 24 horas por dia. Às 18h eu já estava dormindo e ele estava em pé (risos). Estava sempre falando de teatro: quando o assunto era outro, ele puxava para o teatro – recorda o ator Milton Gonçalves, dirigido por ele em 1983 no espetáculo "Vargas".
Depois de participar de diversas montagens, em 1958 Rangel recebeu o Prêmio da Associação Paulista de Críticos Teatrais (APCA) pela encenação de "Juventude Sem Dono", de Michael Gazzo, que teve Milton Moraes no elenco. Em 1959 dirigiu no Teatro Popular de Arte "Gimba, Presidente dos Valentes", de Gianfrancesco Guarnieri, que foi apresentada em seguida no Teatro das Nações, em Portugal, Roma e Paris, consagrando o diretor no meio teatral com apenas 25 anos. Após um ano estagiando na Broadway, Flávio Tangel retorna ao Brasil e em 1960 é convidado por Franco Zampari para dirigir o TBC, a mais prestigiada companhia de teatro da época e que, até o momento, só havia sido dirigida por estrangeiros. No mesmo ano, buscando construir uma dramaturgia brasileira, apresentou o clássico "O Pagador de Promessas", de Dias Gomes, que trouxe como Zé Burro o ator Leonardo Villar, que mais tarde seria consagrado pelo papel.
– O Flávio foi o primeiro diretor artístico do TBC e acho que ele, juntamente com outras pessoas como Guarnieri, trouxe para o palco a brasilidade da linguagem, dos temas, na construção narrativa, que antes disso era uma coisa esporádica. O teatro tinha uma predominância de temas estrangeiros, diretores e atores também estrangeiros, que o TBC importava. É com eles que o teatro brasileiro nasce de fato, como um corpo de trabalho – destaca Paola Prestes, diretora do documentário "Flávio Rangel – O Teatro na Palma da Mão".
flavio-rangel2Com Bibi Ferreira, Murilo Alvarenga e Paulo Autran nos ensaios de 'O Homem de la Mancha' (Reprodução)
Já desligado do TBC, Rangel partiu em busca de outros projetos e escreveu, em parceria com Millôr Fernandes, o espetáculo "Liberdade, Liberdade" (1965), umas das montagens mais significativas do Grupo Opinião. No mesmo ano, após protesto contra o Presidente Castelo Branco, o diretor foi preso junto a outros intelectuais. Depois de semanas de pressão da classe artística, foi solto. Em 1970 voltou à prisão por suas crônicas para "O Pasquim". Nessa empreitada jornalística, escreveu de 78 a 84 para a Folha de São Paulo". Suas crônicas foram reunidas em quatro volumes: "Seria Cômico se Não Fosse Trágico", "A Praça dos Sem Poderes", "Os Prezados Leitores" e "Diário do Brasil".
– Eu jamais poderia esquecer minha experiência com Flávio porque eu considero meu primeiro trabalho profissional. Ele estava dirigindo "O Homem de la Mancha" e junto tinha ali Paulo Autran, Bibi Ferreira e Grande Otelo. Então, obviamente, eu estava vivendo um momento de encanto. Estava começando a minha carreira e foi uma oportunidade de ter um encontro com grandes mestres. Foi muito empolgante. Eu ficava sempre encantado com a construção do trabalho dele – lembra Zécarlos Machado, dirigido por Rangel em "O Homem de la Mancha", em 1973. – Ele é um ícone do teatro brasileiro. A história dele no teatro é de uma dignidade, tem uma força e potência bastante significativas. A geração dele era uma geração muito importante para o teatro naquele momento, para tudo que estava surgindo, o TBC, o Teatro de Arena, os grandes autores, Vianinha, Boal, Guarnieri, e o Flávio estava junto.
Leonardo Villar em cena de 'O Pagador de
Promessas' (Foto: Reprodução)
Seu trabalho com musicais teve início em 1982, com "Amadeus". "Piaf", que marcou a carreira de Bibi Ferreira, veio em seguida. Ao longo de suas três décadas de carreira, foram mais de 80 peças dirigidas e muitos sucessos apresentados ao público. Para Paola, sua receita do sucesso vem do fato de ele reunir duas esferas importantíssimas do teatro: a arte e a técnica.
– O Flávio é o que a maior parte dos diretores deveria ser. De um lado ele tinha o perfil artístico de compreensão do texto, da delicadeza da montagem; do outro era um realizador com conhecimento técnico. Os espetáculos dele funcionavam, davam certo, mesmo quando ele fazia grandes montagens e musicais, 30 pessoas em cena e uma grande equipe de técnicos, tudo aquilo funcionava muito bem. Eu o vejo como uma equação onde a emoção está perfeitamente equilibrada com a razão: o Flávio artista sempre está equilibrado com o Flávio produtor e realizador – enaltece a documentarista.
Flávio Rangel morreu no dia 25 de outubro de 1988, vítima de um câncer de pulmão. Com apenas 54 anos, deixou a mulher, a atriz Ariclê Perez, e um filho do primeiro casamento. Com mais de 50 peças no currículo, o diretor ajudou a fazer do teatro justamente aquilo que ele julgava ser esta arte: "imperecível e imortal".
– Flávio era muito firme com o ator, mas ao mesmo tempo era de uma humildade enorme, porque abria para a gente a porta da criação. Os espetáculos dele tinham uma beleza ímpar nos palcos. Era uma alegria ir aos ensaios todo dia, ficávamos motivados pela contundência dele, pelo encanto com que ele via o teatro, a magia que criava no palco. Ele me ajudou a ter uma visão mais crítica sobre o teatro, mas também a alicerçar a minha paixão por aquilo que eu escolhi fazer – conclui Zécarlos Machado.

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