Nov 23, 2017 Last Updated 6:03 PM, Feb 11, 2017

Yara de Novaes: "Temos paixão por autores que geram beleza"

 

 

 

Atriz explica a opção do Grupo 3 de Teatro por 'Contrações', de Mike Bartlett

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Quando começamos a pensar na nossa próxima empreitada, sabíamos que gostaríamos de ter um texto contemporâneo como ponto de partida.

E que, antes de tudo, esse texto dialogasse com as relações de dominação que, por oito anos, foram o nosso principal tema.

Nos outros espetáculos do Grupo 3 de Teatro, essas relações tinham sua raiz dentro do ambiente doméstico - entre os casais, nas famílias, atrás das cortinas de janelas. Algo inerente ao que comumente se reconhece nos "contratos amorosos". Eram relações afetivas e sexuais descritas e dramatizadas com caligrafias diferentes, partindo de Nelson Rodrigues no espetáculo "A Serpente", passando por Marco Antonio de La Parra em "O Continente Negro" e chegando a Murilo Rubião em "O Amor e Outros Estranhos Rumores".

Para nós do Grupo 3 de Teatro, a literatura dramática, aliada ao trabalho perseverante de criação de uma cena múltipla de significados, sempre foi o fundamento detonador do processo de pesquisa. Temos paixão por autores que geram beleza e proporcionam cenas, ritmos, reflexões, imagens e metáforas que dialogam com o seu tempo, que atravessam a história, o tempo, os anos. Ao lermos o inglês Mike Bartlett, tivemos aquela boa certeza de que seria nosso próximo autor, nossa quarta montagem. De todas as suas peças, "Contrações" parecia a mais apropriada para nossos pensamentos e intenções. Apropriada porque, com ela, mudaríamos o endereço e os termos do contrato sem, no entanto, interromper nossa trajetória temática e teatral. Então, pensamos em Grace Passô para a direção porque, assim como Bartlett, é uma artista dos dias de hoje, insubordinada e consciente.

Com ela, começamos uma nova e rica experiência em meio a ensaios abertos e itinerantes. Durante um mês, visitamos oito cidades do interior de São Paulo e, em cada uma delas, testamos procedimentos diferentes diante do público. Desde abordagens distintas na interpretação das personagens até uma trilha improvisada e executada ao vivo. Sem falar na verificação diária da comunicabilidade do texto e da ocupação do espaço cênico, modificado sempre que necessário. Ao final das apresentações, havia sempre um debate, onde explicitávamos as experimentações daquele dia, falávamos da trajetória do grupo, apresentávamos os artistas presentes naquele ensaio e abríamos espaço para a participação da plateia. Esse diálogo tornava-se, então, matéria prima para o próximo ensaio, num palco e cidade diferentes.

Depois desse primeiro mês de trabalho, perguntas e trocas, voltamos à sala de ensaio e, com esse precioso legado, concluímos nossa mais nova montagem. Nossa estreia aconteceu em outubro de 2013 no CCBB de São Paulo e, desde esta data, estamos rodando com "Contrações". Fomos à Curitiba, Belo Horizonte e , agora, estreamos no Rio de Janeiro. E, em todas essas temporadas, percebemos que o público continua muito inquieto diante das provocações feitas pelo espetáculo, até mesmo verbalizando suas opiniões durante as sessões, num misto de identificação e repulsa.
Para nós, é importante, necessário e urgente encenar "Contrações" nesse momento em que a individualidade, o trabalho, a comunidade, a liberdade, o tempo e o lugar são questões controversas e que necessitam de mais atenção e análise.

Yara de Novaes é atriz, diretora e fundadora do Grupo 3 de Teatro, que encena "Contrações"

 

 

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